quinta-feira, 14 de outubro de 2010

UMA REVOLUÇÃO

- Então é isso? Acabou?
- Por tudo que conversamos até agora, acho que sim...

Fechou a porta e saiu. Ainda foi possível ouvir a porta do elevador se abrindo. Fiquei na posição da qual havia dito as últimas palavras.

- Então é isso? Acabou?

A impressão que tinha era que se permanecesse parado, conseguiria materializar a minha raiva. Levantei-me, espalmando com força as duas mãos no sofá. Queria ser ouvido, embora não houvesse ninguém no apartamento.

Andei impaciente pela sala. Quando me convenci de que meu sofrimento não seria notado, fiquei com mais raiva ainda. Pensei em entrar no msn, para banalizar minha história na tela de algum desocupado. Desisti. Precisava de algo grande. Maior. Uma revolução!

.....................................................................................

Liguei o aparelho de som da sala. Nem escutava a música. Queria apenas o barulho. Aumentei o volume o máximo possível. O relógio marcava 17h34min. Fui até meu quarto. Quase tropecei nos três pares de calçados largados na porta. Liguei o som de lá também.

Liguei as músicas do celular. Pluguei o mp3 em umas caixinhas de som de computador. Coloquei o pc no volume máximo. Soquei dezenas de peças de roupa na máquina de lavar. Sete bananas no liquidificador. Taquei todos os talheres no chão.

Não queria que meu sofrimento fosse sustentável.

.....................................................................................

Comecei a gritar. Queria que minha garganta arrebentasse de dor por conta da potência do grito. Não era o suficiente...

Desci pelas escadas do prédio ligando todos os interruptores. Disparei a sirene de três andares. Na portaria, mandei o Seu José tomar no cu.

.....................................................................................

Lá fora, ainda era dia... as buzinas dos carros faziam meu prédio parecer em completo silêncio...

A revolução fora abafada.

Nos vemos.

7 comentários:

Lee disse...

Oi Alê...
Nossa... Que atordoamento...
Eu entendo... não sei o que aconteceu(se aconteceu), mais entendo o personagem...
Eu acho que já senti isso...
Acho que a minha manifestação de dor também foi abafada, mais pela indiferença das pessoas.
Parece preso a um sentimento de angústia.. de dor.. não sei explicar o que mais...
Até mais.

Alê Vieira disse...

Lelê... nada aconteceu. Fiquei apenas imaginando...

Academia Juvenil de Letras Machado de Assis disse...

Ah!
nossa... algo em mim sabia que não poderia ser voce. Tipo o post do enterro..
Que imaginação Ale! adorei o texto..
de verdade... parece mesmo que foi vivido... talvez tenha sido, né?!, mais não por voce...=D
:*

Lee disse...

opa! respondi pelo blog da academia...

MAILSON FURTADO disse...

Belo post, PArabens...

Muito bom!!!

Acesse meu espaço...
http://mailsonfurtado.blogspot.com

Fernão Gomes disse...

Gostei mesmo da parte que o sujeito manda o porteiro tomar no cu. Muito legal! Mas o texto como um todo é lúdico e o diálogo que ele estabelece com o sentido de revolução é muito sacado. No entanto, sobre esse mesmo sentido de revolução, seu desfecho é um indicador histórico de abafamento de gestos inssurrectos. Na verdade, dá pra conversar sobre isso. Abraços deste seu admirador.

FG

Fernão Gomes disse...

Eu queria dizer "insurrectos".

Abraços.

FG