terça-feira, 14 de junho de 2011

Oração em fragmentos

Faz três anos e meio da sua morte. Talvez a palavra "morte" soe forte demais, mas acho que é a de significado mais exato. Qualquer sinônimo não precisaria a distância espaço-temporal que me encontro dele agora...

O cemitério estava lotado. Todas as salas de velória estavam preenchidas. Por mortos e por vivos. Mais por vivos do que por mortos. Morre-me muito hoje.

Entramos na floricultura. A vendedora de flores me passou a impressão de ser macabramente feliz.

"Olá, tudo bem?" - disse.

Por sorte "nosso morto" não tinha morrido naquele dia. Mas será que ela recebia a todos clientes daquela maneira?

"Tudo bem? Senhorita, minha mãe morreu não faz nem quatro horas e você vem me perguntar se está tudo bem? Vai pra puta que te pariu!" - Diria alguém menos aleatório num cemitério...

Compramos um vas"inho". Simples. Singelamente suficiente.

Não subimos as alamedas do cemitério a pé. Em dois minutos, descíamos do carro, estacionado bem próximo à entrada da rua, onde o túmulo estava.

Colocamos as flores. Discutimos frivolidades a respeito dos enfeites das lápides ao redor. Rimos do contraste entre o luxo do cemitério e a paisagem favelar que o rodeava.

Tínhamos que acender as velas. Alguns passos até o velódromo - que nome, hein! Acendemos. Uma duas três quatro cinco seis sete oito. O vento fez apagar a quatro e a sete, ao que foram novamente acesas com a chama da cinco e da oito.

Atrás da gente, dois cortejos passavam. Mais dois corpos para suas moradas.

Mais algumas palavras sobre o tempo e o vento. Também havia certa angústia por saber o resultado dos jogos do Brasileirão.

Entramos no carro e partimos. Um a zero Corínthians!

Nos vemos.

5 comentários:

Lee disse...

Olá Alê!
eu acho que tem algo por trás deste texto, mais ainda não sei ao certo qual é. Tirando a mistura de ironia, humor também se nota uma certa impaciência da parte do narrador. rs
Eu acho que chega uma certa altura da vida, onde a morte passa a ser algo natural pra as pessoas e a não chocar mais, então, aquelas palavras comuns e velórios, deixa de ser constantes, e se transformam em palavras de assuntos comuns, e diários, como o futebol, e esse indiferença é estranhamente notável na moça da floricultura. rs. Eu acho que, pelo nível em que a sociedade chegou, o morrer, não choca mais. É fruto do passado...
Nos vemos Alê!
se cuide!
bom dia! e obrigada!

Alê Vieira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
escritor@ disse...

Engraçado eu abrir seu blog justo hoje e ler esse texto. Entendo os fragmentos.......pelo menos os interpreto de acordo com fatos ocorridos. Belo texto, Ale.

Anônimo disse...

corinthians não tem acento...

* Leticia * disse...

Ola Ale!
Eu particularmente, aprecio seus textos. Eu, contrariamente a Leandra, não acredito que a morte se tornou algo natural, talvez o tempo ajude a acalmar e ate mesmo a acariciar o coração de quem pobremente sofre pela morte. Acredito que a morte eh algo muito pessoal, cada um a encara da forma que lhe "favorece", ha aqueles que sempre se comovem e também aqueles que se solidificam como pedra para não transparecer como a dor eh inevitável, mas todos sofrem, se alguma forma. Cuide-se Ale!
Muito bom reve-lo!!

Beijos!!