domingo, 29 de agosto de 2010

No banheiro

“Duas folhas de papel não limpam de verdade a mão, né?”
“Não”. – esforçando-se por fingir um sorriso.
“Eu não consegui ficar lá fora. O ambiente, as pessoas... Ainda não estou preparado para consolar alguém. Talvez eu ainda precise ser consolado.”
“...”

Os dois permaneceram ali, no banheiro, ao lado das salas de velório. Roberto não conseguia segurar as lágrimas. Augusto não conseguia chorar. A dor era a mesma. Apenas a intensidade era diferente.

“Vai passar?”
“Não. Não vai passar”
“E aí?”
“...” – as lágrimas não desciam. Augusto queria se mostrar mais humano.
“...”
“Não sei. A única coisa que de fato acontece é que você percebe o quanto ainda não viveu.”

Um senhor entrou batendo a porta do banheiro. Dirigiu-se a uma cabine. Ouviu-se o barulho da sinta, seguido do som contínuo da urina caindo na água da privada.

“Falou.”
“Vou ficar por aqui” – disse Roberto –“, esperando secar minha mão naturalmente”.

Nos vemos.

3 comentários:

Lee disse...

Oi Alê...
esse pst meu deixou meio confusa...
mão sei se o que voce quer dizer foi o que eu entendi...
mais é profundo... é humano...
mostra que a gente geralmente não vive o que gostaria, muitas vezes é o que somos obrigados a viver... mostra o quão dificil é uma perda... eu não gosto desses ambientes...
não sei o que fazer...
é dificil..
;*

Lee disse...

É, indiretamente... huahaua
é... depois eu pensei que se o homem é que não trata o outro como animal... é... está desumano Alê...

Fernão Gomes disse...

O homem que "invade" o banheiro é um espectro. Não se preocupe com ele: é uma entidade representativa de tudo o que nos confronta. O que, neste caso, realmente importa, é que você está exatamente no entrelugar da representação anterior a ele. O diálogo.

"nos vemos"

Fernão Gomes