Em 1995, minha mãe dizia:
Ish... Quando eu cheguei aqui com o seu pai, não tinha nada... nem casas direito. Com muito trabalho, construímos esse sobrado. Depois veio outro, e outro, e outro...
Compramos carros, Kombs, carros e carros. Agora olha aí ó... é outra vila já... e nem estamos no centro da cidade, hein... aposto que em 2010 não vai dar nem pra ver o céu direito, de tanto prédio que vão construir aqui... Vão fechar a nossa paisagem. Já cortaram o pé de pitanga que tinha. Agora vão subir dezenas dessas caixas de sapato! Até 2010...
Ainda em 95, com minha cabeça de menino de oito anos, eu poderia dizer - não com essas palavras:
Os carros mover-se-ão levitando, por ação de forças eletromagnéticas. Nas escolas, anotaremos em cadernetas digitais e o professor, se quiser, poderá abrir um mapa da Itália no quadro.
Os prédios, onde todos morarão, serão interligados por elevadores inteligentes. Poderei com o toque de alguns botões, chegar na casa do meu amigo Felipe, da 1ª série. Controlaremos nossas casas por relógios-cumputadores.
Em 95, com a minha cabeça de hoje, escreveria:
Será um futuro Matrix, no qual ver algum raio de sol será um momento epifânico na existência de um indivíduo. A 3ª guerra mundial não destruirá a Terra porque ela será malignamente administrada para que sobrevivamos feito ratos.
Tudo será escuro, e podre, e feio. As pessoas boas não mais quererão se mostrar com medo de se transformarem em pessoas más. Muita fome, doença, intolerância, dor...
Ao final de 2010, contudo, podemos analisar imageticamente o seguinte aspecto, de tudo que foi dito:
Vista do quintal da minha casa, Santo André.
Nos vemos.