terça-feira, 23 de julho de 2013

Juan Dias, o Dia!


Juan, o dia, era apenas um adolescente de sete horas e cinquenta e oito minutos de idade. Até então havia vivido uma infância de privações. Filho do medo da noite, até aquele momento conhecia apenas sombras e gente muito estranha.

Não foi, porém, sem dificuldade, que ele sentara ali naquela grama ainda molhada de orvalho, para pensar que seu aniversário chegaria logo – dali a dois minutos. Estava, pois, mais do que na hora para que ele decidisse o que exatamente ele iria querer ser para o resto de sua vida: mais um dia nublado, modorrento, comportando-se como alguém decidido a atrapalhar a vida dos outros; ou um dia bem sucedido, ensolarado, rebento, daqueles que chegam às sete da noite com saúde e lucidez suficientes para reviver as horas obscuras não como depressão, mas como um envelhecimento saudável e intelectualmente bem resolvido.

***

O relógio apitou às 8h. Aniversário! Hora de comemorar mais uma hora de vida na vida de Juan Dias. Ou não!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma ilha para passear

"Passeios na Ilha", do Drummond, foi publicado pela primeira vez em 1952. Eu li uma edição da Cosacnaify, de 2011. O livro me tomou logo na primeira página, no primeiro parágrafo:


Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto dos ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.
Ao longo das páginas da obra, o poeta vai falar das suas Minas Gerais, através de quadros impressionistas de Itabira e Ouro Preto; das injustiças que a classe média sofre nos discursos oficiais - e nos não oficiais também; e dos poetas cujas leituras são humanamente necessárias.

Para mim, contudo, esse primeiro parágrafo já guarda em si todo o conteúdo, e todos os sentimentos que Drummond sentia quando da época de sua publicação, e também o que sinto um pouco por viver nos tempos presentes. 

Não é exatamente a necessidade de fugir. Muito menos querer uma temporada de descanso, sossego. Trata-se muito mais da necessidade de me encontrar, ainda que seja numa ilha metafórica, para avaliar a existência. Também não se trata de uma avaliação sistemática, de ares depressivos. Preciso de serenidade suficiente para viver o belo da existência, no seu mais profundo sentido estético.

Nesse caso, importa-me, por exemplo, tanto o mais maravilhoso pôr do sol no parque, como o pranto de ansiedade quando se sabe o motivo para tal - ou, sobretudo -  quando não se sabe o motivo para tal. 

É, de fato, uma ilha metafórica. Para Drummond, nos seus "passeios", uma ilha de serenidade para que suportasse o pós-guerra. Para mim - nós -, uma ilha para que eu me suporte. Poder-se-ia talvez dizer uma ilha pré-guerra. Nela ainda receberia jornais, leria romances, assistiria a filmes comerciais, trabalharia, conversaria com meus amigos e os meus não-amigos. Mas teria exatamente na simultaneidade do meu viver a saúde suficiente para o próprio viver. 

"Passeios na ilha" deve ser lido. Eventualmente para que o transformemos quem sabe num livro de frases de auto-ajuda. Ou ainda para que tentemos compreender a importância do exercício de um poeta para adequadar-se ao seu próprio tempo.

Nos vemos.



terça-feira, 9 de julho de 2013

Voltei...

Voltei com mais perguntas! Segue, pois, a primeira - que, no fim de contas, não é essencialmente uma pergunta:

POR QUE NOS ENCHEMOS DE LITERATURA, SENÃO PARA NOS DEVOLVERMOS CHEIOS DE HUMANIDADE? 

Um post, a cada sete dias.

Nos vemos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

E esse é o fim das palavras e dos caramelos... Pelo menos das palavras que estão aqui e dos caramelos que por tanto tempo me conduziram neste espaço... Vou inventar outras coisas num espaço diferente - que ainda está em gestação. Por enquanto, obrigado mesmo pela leitura atenciosa, frequente, crítica, elogiosa... gentil! Todas elas me serviram sempre, e vão continuar me servindo! Um grande abraço, Nos vemos. Nos vemos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Obrigado!

Discurso de Paraninfo para os alunos do 3ªA, Colégio Fleming Campinas. 07 de Dezembro. Ano 2011.

***

Senhores pais, amigos professores, coordenação, direção, convidados,... Meninos ... boa noite!

É incrível pensar como depois de três anos - com encontros de quase duas horas semanais - eu ainda tenha coisas a serem ditas pra vocês.

Honestamente não haverá nada de novo. O curioso ou o interessante desta fala reside justamente na minha tentativa absolutamente amadora de falar coisas velhas - e descaradamente batidas - dando-lhes uma roupagem de gala.
A intenção - que fique bem claro! - é menos a pretensão, e mais a necessidade de vê-los, de novo, ... de vê-los, uma última vez, na verdade... atentos àquilo que eu julgo - arbitrariamente - importante falar sobre o mundo.

***

Certa vez - era uma sexta-feira de 2009 - a Profª. Silvana, de Gramática, afirmou o seguinte a respeito do 1ºA - hoje 3ºA: “Eles são espetaculares! É a turma em que ninguém se repete... tem de tudo ali...”.

Na época, eu tinha inúmeros problemas de disciplina na turma. Por vários motivos. Mas... sobretudo... por eu não compreender que eu não podia dar UMA aula para 25 alunos. A fala da Profª. Silvana veio epifanicamente me esclarecer que eu deveria preparar de um mesmo tema 25 aulas para 25 alunos.

Evidentemente se alguém me perguntar, eu não vou conseguir nem esboçar uma resposta de como se faz isso. Também não posso garantir que de fato naquele ano eu tenha dado no mesmo espaço-tempo 25 aulas diferentes. Às vezes eram 23, 15, 7... às vezes - e eu preciso ser muito honesto com relação a isso - não conseguia nem meia aula direito.

Às vezes, contudo, - e essas também não foram poucas ao longo destes três anos como professor de Literatura -, cada uma das aulas que eu preparava... para cada um de vocês... de repente se fundiam em uma só, e de repente eu tinha a um só tempo a generosa e respeitosa atenção de todos de uma só vez. (Pausa) Aí... (Pausa) matávamos Inês de Castro juntos, morríamos de amar com Werther, subíamos em cima de defuntos na frente dos diretores da escola, na taverna do Álvares de Azevedo.

Vocês transbordavam da sala, esparramados... Rigorosamente travessos, forçavam os caprichos do mundo que queríamos na sem-gracisse do mundo que tínhamos. E mesmo nossas falas... ali dentro, elas nunca conheceram muitos os limites do que elas podiam dizer para aquilo que gostávamos de imaginar. E de repente... (pausa) por uma espécie de milagre absolutamente premeditado... (pausa) vocês sempre me faziam acreditar - porque, de fato, é verdade - que podemos muito mais o que queremos do que o que precisamos.

Nesses momentos, ... (pausa) onde estávamos menos na sala e mais no mundo, gradualmente nos despedíamos. Porque o professor... os professores... (pausa) servem pra isso mesmo: para escrever o melhor prefácio do mundo... sobre o mundo... para que depois vocês mesmo o conheçam, e o vivam, e o chorem, e o rasguem... e o reescrevam, e o mudem... como tão gentilmente vocês tantas vezes me mudaram...!

Obrigado!
Prof. Alexandre

sábado, 3 de dezembro de 2011

Augusto Mendes Ribeiro

No dia em que Augusto Mendes Ribeiro morreu, eu fiquei verdadeiramente triste. Ele era uma ótima companhia. Sobretudo para os momentos ruins! Quando eu estava quebrando a casa porque certa mulher não mais me procurava, ele aparecia com pinga, numa garrafa pet de 600 ml e me convidava a beber até morrer. Eu - evidentemente - bebia duas ou três doses e morria. Ele, quando eu 'ressuscitava' no dia seguinte, parecia ter passado a noite assistindo a filmes cults e comendo alimentos à base de soja.

Eu acho que fazia bem às minhas mediocridades ver o quão bem Augusto Mendes Ribeiro vivia como gente simples.

Aí ele morreu. De verdade. Nem foi da bebida. Até onde sei, parece que foi um atropelamento. Ele também não foi o culpado. Parece que o motorista - esse sim embriagado - avançou no farol vermelho. Às quatro da tarde! Aí ele morreu. Meio na hora, meio no hospital.

Eu acho que pessoas como o Augusto Mendes Ribeiro nem deveriam morrer. Eu deveria! Eu complico demais as coisas; tento adivinhar o futuro; preocupo-me exageradamente com minha imagem; aprendo coisas que nem são pra mim; tenho preguiça... e por aí vai... Já o Augusto Mendes Ribeiro vivia muito bem na sua simplicidade. E se agora ele morre - meio velho, meio novo, meio bêbado, meio bom, meio pobre, meio paupérrimo -, morre como um ser humano inteiro, que a vida toda não se preocupou em forjar as suas metadinhas, senão sendo.

Eu nem sei se adianta essa coisa de dizer em voz alta com fé. Ultimamente tanto a voz alta como a fé têm me faltado. De qualquer forma, Augusto Mendes Ribeiro merece toda a minha metade não afetada por mim: descanse em paz, meu bom amigo!

Nos vemos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Na loja de eletroeletrônicos...!

Certamente ele não era um comprador. Estava ali na loja mais ou menos como estão todos: apertando aleatoriamente os botões disponíveis e ouvindo desinteressado trinta segundos de músicas dos discos das prateleiras.

O tablet da Apple parecia verdadeiramente atraente. Já se via possuidor de um daqueles. E via também a expressão de impressionado que seu cunhado faria quando ele tirasse da capinha o brinquedo recém adquirido.

Ele não parecia ter mesmo intimidade com as tais novas tecnologias. Tanto que mexia no Ipad mais ou menos da mesma forma como quando se busca uma caneca para dar de amigo nas confraternizações de firma de fim de ano.

Apertou, sem querer, o ícone da galeria de fotos. Ali achou certa graça ao ver desconhecidos fotografados em seus trajes de domingo, que sorriam para fotos as quais provavelmente nunca mais veriam. Passou umas quarenta daquelas imagens, até que se deparou com três ou quatro vídeos de 9 segundos, filmados certamente no susto de outros pares que também lidavam mal com tecnologias como aquela.

Quando estava prestes, contudo, a deixar de lado o aparelho, clicou naquele que seria o seu último vídeo:

“Olá! Meu nome é Roberto! Não acho que alguém vá assistir a esse vídeo. De qualquer forma, fica aqui registrado. Não aguento mais essa m... de vida! Espero que vocês consigam suportar suas existências de 70, 80 anos... a minha já me fica bem aqui pelos vinte e poucos... Não vou falar mais porque ninguém entenderia mesmo... Nos vemos!”

Ainda assistiu ao vídeo mais uma vez. Em seguida, voltou para casa para fazer os exercícios da apostila do curso de Espanhol...


Nos vemos.

sábado, 12 de novembro de 2011

Estilhaços

Largadamente jogado.
Não me consigo ser perfeito mesmo.

Muitos papéis espalhados.
Mas o prazer pesa a frágil cama.
Afirma a desimportância das coisas todas.
Pela janela, a brisa anuncia gostosamente a chuva.

Mesmo no blog da redação do UOL ela já havia sido anunciada.
Evidentemente há muitas coisas por fazer.
O violão, os samples, e a fúria das guitarras imobilizam as providências.
De repente, o preenchimento.

Livros largados.
O filme no pause.
Pratos arbitrariamente se acumulando...


De qualquer forma, melhor sorrir agora.

Evidentemente isso não foi um poema. Isso... só aos trinta mesmo!

Nos vemos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

[Sem título adequado]

A criança na mesa ao lado, ainda de colo, manteve-se observando a conversa o tempo todo. Nunca eu a acusaria de fofoqueira, bisbilhoteira; não mandaria que se virasse e respeitasse a nossa privacidade. Assim que ela chegou, acordamos - sem dizer palavras - que se aquela criança quisesse ouvir a nossa conversa, ela simplesmente poderia.

Acho que ela não quereria fazer nenhum tipo de comentário ao longo das nossas falas. Seria uma espécie de observadora privilegiada... Permitiríamos que ela analisasse nossas expressões, ora de desconforto, ora de espontaneidade... Ela não nos atrapalharia nem mesmo se jogasse de sua cadeirinha um de seus brinquedos de borracha no chão. Pacientemente eu me levantaria para apanhar o objeto e o entregaria com um sorriso de bom gosto nas mãos ainda trêmulas da criança.

Imaginei que talvez nesses momentos ela pudesse imperceptivelmente me chamar e me dar alguns conselhos - orientações de alguém que ainda não estivesse febrilmente viciada nas coisas da mundo -, para que errasse menos a posição das minhas mãos, o timbre da minha voz, a intensidade dos meus olhares.


Os brinquedos, contudo, não caíram. Tratava-se certamente de uma criança ainda mais educada e mais discreta do que sua aparência sugeria.

***

Seus pais resolveram ir embora. Não sabia da hora, mas achei que iam cedo. Ainda com uma última espiada, não consegui decidir se a expressão da criança era de satisfação ou tédio; se me aprovava ou reprovava. Saber seria importante pra mim. Uma espécie de alívio, ou de parâmetro para correção. Ela, contudo, mantinha as mesmas expressões da chegada: sempre sorridente, corporalmente agitada, e curiosíssima com os meus olhares. Sua pouca idade definitivamente abocanhavam a minha maturidade vacilante...

A criança se foi. A mesa provavelmente seria ocupada por algum casal de ocasião; e as atitudes e olhares dos dois, diriam muito menos do que as marotices da criança. Ainda agora sinto falta da criança.

Nos vemos.

domingo, 24 de julho de 2011

(...)

João gesticula de modo a criar nas mentes mais fracas as imagens que tão dramaticamente descreve. Mais da metade dos alunos, contudo, mantêm-se impassíveis, frente às suas palavras.

Outras folhas – essas desenhadas – embora pululem também, dos mesmos cadernos, ainda que algumas chovam de baixo para cima de cadernos até então inanimados – como deveriam ser todos os cadernos -, tomam os contornos principais da sala, instituindo uma atmosfera apocalíptica na qual, por fim, algumas verdades absolutas serão estacadas no seio da humanidade.

(...)
"Qualquer um de vocês poderia ser personagem de um romance; qualquer um de vocês poderia ser personagem neste romance".

sábado, 23 de julho de 2011

A história das coisas II

(...)


Mesmo a sua única conta de e-mail. Essa guardava atualmente a incrível quantia de 8767 mensagens recebidas. Tinha a conta há seis anos. Mas admirava-se muitíssimo de ainda hoje, depois de tantas mensagens apagadas – algumas apagadas antes mesmo de serem lidas -, ter armazenado mais de oito mil e-mails. Se quisesse, com algum esforço – não muito -, poderia contar a história da sua vida inteira por aqueles e-mails - os recebidos e os enviados. Embora eles tivessem sido inventados, enviados, lidos e apagados no curto prazo, em perspectiva, de seis anos, certamente neles era possível ler a sua vida inteira.

“Se eu escrevesse a letra a nessa mesa, pensou, nela já estaria minha vida inteira?”

(...)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

“Andei por 50 000 palavras até encontrar tu, Eu!”
(...)

Ainda faltavam quatro dias para aula. Seria no primeiro período da segunda-feira. Ainda era quinta. Digitou o título da aula no nome do arquivo do documento de texto. Ainda gastou longo tempo centralizando o título na folha virtualmente em branco, escolhendo a fonte, o tamanho dos caracteres. Com muito êxito, conseguiu evitar as consultas pasmódicas às suas redes sociais, à caixa de entrada da única conta de e-mail que mantinha. Imaginou-se um crítico – melhor... um opositor, a resistência – do sistema quando decidiu fechar o navegador de internet para melhor se concentrar na tarefa que tinha proposto para a noite da sua quinta-feira.

Contudo duas ou três das suas convenientes divisões de consciência acusavam-no de hipócrita por achar que apenas por querer ignorar por algumas horas o seu navegador de internet ele seria melhor do que todos aqueles que estariam confessamente empanturrando-se de vidas alheias.

(...)

sábado, 9 de julho de 2011

Nos próximos sete dias, vou editar o texto abaixo. Ele está, muito aos poucos, nascendo da leitura da biografia da Clarice Lispector - "Clarice,", de Benjamin Moser. Todo o processo de escrita e reescrita do texto será diariamente registrado. Evidentemente as marcas da organização desaparecerão. No próximo sábado, sobrará apenas o texto, inteiramente escrito, razoavelmente pronto, e livre de qualquer marca metalinguística de sua produção. Vamos ver o que acontece!


Aula de Literatura

- Bom dia a todos! Meu nome é Clarice Lispector. - Mantém os olhos vidrados na turma, como quem já está consumido pelo tamanho da tarefa.

- Não sei se vocês já me conhecem... ...serei a professora titular de Língua Portuguesa de vocês. Darei aulas de Literatura. "É pouco, é muito pouco. Mas já é um pouco mais do que estava sendo."

Bem... antes das apresentações, "Besteira achar que conseguiríamos nos apresentar...", gostaria de falar um pouco sobre a impossibilidade desse curso.

...

É o sinal? Devemos sair? - Todos parecem cansados com a necessidade de cruzar a porta...

Nos vemos.

Não é possível dar prosseguimento a ideia da construção do texto. Os primeiros preparativos já me dizem que esse texto não pode ter o formato cabível em um blog. Portanto, contra as minhas vontades, estou encerrando-o nas poucas linhas que escrevi para desenvolvê-lo em outra instância.

De toda forma, muitíssimo obrigado pelo interesse que vocês demonstraram por ele. Certamente vocês terão notícia dele!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Enfim, só mais um de amor

- "Ela se matou por causa desse amor!" - disse a professora Elisabete, folheando um álbum de fotografias, junto com a inspetora Cláudia. No último dia de aula antes das férias, não se faz muito coisa mesmo, né...

Até aquela frase, o diálogo entre as duas não havia chamado a atenção de Maria Cecília. Ali, contudo, algo a transtornou: o que seria exatamente esse "AMOR". Seus quatro anos ainda não haviam esclarecido isso pra ela, muito embora fosse, aos olhos de muitos adultos que conhecia, uma criança prodígio.

Cecília, mesmo com a pouca idade, parecia saber já uma porção de coisas! Sabia que o estatuto da criança e do adolescente continha leis que protegiam a criança e o adolescente; já havia ido a Campinas, Bauru, São José dos Campos, Rio e Ribeirão Preto, Caconde...; tirava sons melodiosos da flauta doce; aprendera há muito tempo – talvez já há uns 15 meses – a como fazer bolinhos de chuva – a massa pelo menos...

Aquela situação, contudo, não lhe caiu muito bem. Percebeu, que, de fato, não sabia o que era o “AMOR”! Diabos!

...

Cecília começou uma investigação profissional! Não perdeu de prestar atenção nos diálogos em que aquela palavra fosse referida novamente. Fosse com a mãe, com o pai; na quitanda, onde toda tarde ia comprar chocolate Surpresa, com os primos mais velhos... Era toda interesse para esclarecer logo o que era aquilo que havia feito, ao que tudo indica, pelo menos uma pessoa morrer...

Não perguntava diretamente sobre o assunto. Achava indigno não conseguir descobrir sozinha, apenas a partir das evidências que o mundo lhe dava. E como não soubesse ler, nem a dicionários, livros, revistas, jornais, internet poderia recorrer. Ela não sabia nem a forma do “AMOR”.

...

Certo dia, na cozinha de sua casa, sua mãe conversava com a tia Tata, enquanto esperavam que o bolo de cenoura ficasse pronto. Dona Eliana leu alto o rodapé da capa de uma revista que estava ali por cima das coisas, há semanas:

- "Próxima novela das seis vai se chamar 'Amor aos pedaços', revela diretor"...
Cecília não perdeu tempo:

- Mãe, corta pra mim onde a senhora leu "AMOR"?

A mãe cortou cuidadosa, achando graça no pedido da filha. Não perguntou porquês, com medo de intimidar o interesse da menina.

Cecília tomou a palavra na mão. Ainda restava o pedaço da próxima palavra: “AMOR A”.
Então tinha nas mãos o “AMOR”. Ainda que não tão bem cortado, imperfeito... Ali estava. Sentia-o, liso, fresco, destacado do seu todo, mas, pensava, potencialmente grande, e eclético. Parecia bem simples: "A-M-O-R". Conseguia identificar que eram quatro letras. Olhou por algum tempo, muito menor do que o tempo que se demora para descrever a cena.

Caso resolvido!

Antes de passar para o próximo - uma curiosa pesquisa sobre a Hungria -, colou o pedaço de papel na agenda, no dia corrente... 07 de julho.

Foi com algum descuido que, ao tentar tirar o excesso de cola, rasgou parte da palavra.

- Ai... rasguei! - falou desolada.

Ficaram dois pedaços ligados por um pedacinho frágil de papel: “AM” e “OR A”.

Consertou como pôde, com fita adesiva. Ficou com medo de que houvesse represálias por parte de algum poder divino. Era sempre bom ter algum cuidado, né...

...

Um dia, 50 anos depois, a professora aposentada Maria Cecília achou seus diários antigos, mexendo nas velharias em um quarto empoeirado. Morava no Jardim Bom Pastor, em Santo André, perto da grande São Paulo.

Seu primeiro "AMOR" ainda estava ali, evidentemente meio rasgado, guardado nas páginas do primeiro diário. Parecia envelhecido, junto com as páginas de todos aqueles dias de julho...

Lembrou que “Amor aos pedaços” não havia sido uma boa novela...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Fim.

Lembro-me muito bem de como tudo isso começou. Eu tinha 14 anos. Era um sábado à tarde e nós finalmente havíamos conseguido reunir toda a nossa turma para irmos ao cinema. Eu ainda não seria um professor de literatura, nem gostaria tanto de rock, não viria morar em Campinas e muito provavelmente ainda não era um viciado em panetone. Era um leitor de ocasião. Da ocasião que a escola propunha. Um leitor do necessário; somente o necessário.

A tarde corria adolescentemente bem. Os flertes de sempre, a batata também, as piadas também. A sessão de cinema correu classicamente normal. Os amigos mais exaltados fizeram a guerra de pipocas; rolaram as conversas paralelas antes do filme começar. Depois, o filme começou.



Ponto final. Depois disso, acho que a história da minha vida foi reescrita naquelas poucas horas de filme. Foi uma espécie de reprogramação. Tentando outras interpretações, foi a definição oficial de qual seria - será - por muito tempo a minha contribuição pra mim mesmo e para o mundo.

Saí da sala de cinema impressionado, e previsivelmente quieto.

10 anos depois, agora, no próximo dia 15 de julho, ocorrerá o final simbólico dessa geração na qual tão honrrosamente nasci. Hoje eu não lembro mais a criança impressionada do pós filme. Com honestidade, mesmo as histórias de cada um dos livros estão um pouco desencontradas na memória.

No entanto, é uma obrigação eu destacar pra mim mesmo, e talvez, com certa pretensão, para as próximas gerações também, que o leitor que eu sou hoje foi, em grande parte, construído por cada uma das histórias da SAGA HARRY POTTER!

Conheci grandes pessoas através delas e vivi - não tenho dúvidas - grandes narrativas reais por conta das páginas de Harry Potter. Acho que esse fim terá um sabor muito aquém daquilo que todo o processo representou para os milhares de fãs da série, mas é um fim necessário para que tenhamos claro os contornos disso tudo! Ficam aqui, as minhas honestas palavras de agradecimento, sobretudo à autora, J.K. Rowling!


Nos vemos.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O mês de junho impressionista

Deixei as rosas compradas!
Elas apodreceram todas dentro do carro.
A decisão da entrega não foi simultânea ao querer recebê-las.

O mês de Junho é assim mesmo! Contundente, definitivo, cirurgicamente preciso! A minha impressão é que toda a minha existência cabe dentro do mês de junho. Como se todos os outros meses fossem apenas preâmbulos para esses 30 dias. Estranhos trinta dias! Vocês nunca me sairão da memória! As minhas lembranças inteirinhas são de vocês!

Nos vemos.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Oração em fragmentos

Faz três anos e meio da sua morte. Talvez a palavra "morte" soe forte demais, mas acho que é a de significado mais exato. Qualquer sinônimo não precisaria a distância espaço-temporal que me encontro dele agora...

O cemitério estava lotado. Todas as salas de velória estavam preenchidas. Por mortos e por vivos. Mais por vivos do que por mortos. Morre-me muito hoje.

Entramos na floricultura. A vendedora de flores me passou a impressão de ser macabramente feliz.

"Olá, tudo bem?" - disse.

Por sorte "nosso morto" não tinha morrido naquele dia. Mas será que ela recebia a todos clientes daquela maneira?

"Tudo bem? Senhorita, minha mãe morreu não faz nem quatro horas e você vem me perguntar se está tudo bem? Vai pra puta que te pariu!" - Diria alguém menos aleatório num cemitério...

Compramos um vas"inho". Simples. Singelamente suficiente.

Não subimos as alamedas do cemitério a pé. Em dois minutos, descíamos do carro, estacionado bem próximo à entrada da rua, onde o túmulo estava.

Colocamos as flores. Discutimos frivolidades a respeito dos enfeites das lápides ao redor. Rimos do contraste entre o luxo do cemitério e a paisagem favelar que o rodeava.

Tínhamos que acender as velas. Alguns passos até o velódromo - que nome, hein! Acendemos. Uma duas três quatro cinco seis sete oito. O vento fez apagar a quatro e a sete, ao que foram novamente acesas com a chama da cinco e da oito.

Atrás da gente, dois cortejos passavam. Mais dois corpos para suas moradas.

Mais algumas palavras sobre o tempo e o vento. Também havia certa angústia por saber o resultado dos jogos do Brasileirão.

Entramos no carro e partimos. Um a zero Corínthians!

Nos vemos.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O soco!

A porta do meu guarda-roupa, há uns três meses, descolou-se da estrutura do embutido. Coloquei atrás da porta do meu quarto. Ficou lá, por longos três meses, parada.

Todos os dias, quando eu acordava, e abria a porta do quarto, ou a fechava, o pedaço de madeira tremia, como quem quer cair, mas não cai porque sua intenção era mesmo só dar medo em quem pudesse pensar que ela poderia cair.

Três meses. É bastante tempo. É até difícil contar quantas vezes eu entrei e sai do quarto. É tempo mais que suficiente para eu sair desse quarto e talvez não voltar mais. É tempo para eu ficar dentro escrevendo um livro. Começar e terminar o livro, na verdade.

Três meses. É possível ter muitos dias sensacionais em três meses. E dias muito ruins. E dias péssimos.

A porta do guarda-roupa ficou ali: obediente, estática. Em um dos dias, dois até, tirei a porta do lugar para varrer aquele canto. Não demorei muito para botá-la onde estava.Já havia passado muitos dias antes da limpeza. Depois disso, outros tantos passaram.

E não é que hoje, no fim do dia, quando já não se está com disposição pra mais nada, a porta não saiu do lugar! Arrumei a cama pra dormir, vesti a roupa de dormir, escovei os dentes para dormir, desliguei o computador. Fui dormir. Quando fui fechar a porta do quarto, eis que veio a porta do guarda-roupa, com vida própria, socar o meu rosto... em cheio!

Não revidei. Coloquei a porta novamente no seu devido lugar. Vai ficar o roxo do soco. Vai ficar a sensação de que eu poderia ter evitado o soco se tivesse consertado o problema nos três meses que tive para consertá-lo.

Nos vemos.