domingo, 31 de agosto de 2014

A pergunta não é o que quero ser quando crescer. A pergunta é o que já sou!

Estive ontem na feira de profissões do Guia do Estudante, no Expo Center Norte. Foi uma visita bastante animada com a companhia agradabilíssima dos meus alunos do Colégio Renovação, de Indaiatuba, o do meu amigo, professor Natan Leite!

Entre estantes, estandes,  instantes e palestras, fui assaltado por inúmeras questões referentes à escolha da profissão. É claro que me desagradou a quantidade de pessoas, a oferta e o preço da comida, a queda de energia no final do dia, o pouco tempo de fala para os palestrantes, e, sobretudo, o bombardeio de propagandas de faculdades e universidades pagas, naquele que deveria ser uma espaço dedicado integralmente às discussões sobre a organização de um futuro profissional.

Mas houve ali, pelo menos na programação do sábado, alguns momentos realmente interessantes - daqueles a que consegui assistir! A saber:

- a fala do jornalista André Rizek, que contou seu percurso profissional, desde as salas de aula do curso de jornalismo da Puc até o momento atual, em que é apresentador do programa  "Redação Sportv", e figura chave na concepção de novos programas para emissora global.

- a presença de três estudantes muitíssimo bem colocados nos últimos exames vestibulares de verão! Foi legal porque são pessoas razoavelmente normais, que fizeram muitos sacrifícios para conseguirem 1ª colocação no ITA, Santa Casa, Usp, Unicamp, Unesp, Unifesp etc... Mudaram de cidade para estudar, passaram anos sentados em carteiras de cursinho, fizeram escolhas na organização daquilo que estudar e, principalmente, estavam absolutamente tranquilos com o fato de que não precisam começar um curso universitário aos 17, 18 anos de idade!

- a fala do filósofo Ives Alejandro Munhoz, da Uscs, na palestra "O amor para todas as coisas". Fez uma fala tipiquíssima de professor de filosofia. E, por isso mesmo, esclareceu muito mais sobre os caminhos para a escolha da profissão do que muitas orientações vocacionais das quais já participei.

Organizei algumas perguntas que julgo síntese do evento de ontem e balizadoras de uma escolha consciente:

1º O que você gosta de fazer? 

Digo pensando exatamente naquilo que você faz sem obrigação. 

2º Você gosta de trabalhar com pessoas ou com coisas? Sozinho ou em grupo?


3º Qual a estrutura material de que você precisa para fazer o que gosta? 

Isso vai ajudar a esclarecer o quanto você precisa ganhar para manter essa estrutura e conseguir investir na mesma. 



Se você conseguir responder mais ou menos e com honestidade a essas perguntas, vai chegar em possibilidades REAIS de carreira. O resto - realização, dinheiro, fama etc - será consequência do seu bom trabalho. E ainda que você não chegue a uma única carreira, não há problema algum... Ganha hoje aquele que sabe trabalhar por projetos e aquele que sabe desenvolver e executar ideias - suas ou não.

Nos vemos!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Asian Dub Foundation: Indaiatuba recebeu o melhor show da Virada!

Era meia-noite em ponto, do dia 25, quando os caras do Asian Dub Foundation subiram no palco da virada Paulista, em Indaiatuba! Pouquíssimos propagandeados, não fizeram cerimônia: quase uma hora e meia de um show incrível!

Eu não conhecia o som dos caras, mas fiquei impressionadíssimo com as inúmeras misturas que as músicas promovem! Hip Hop, psicodelia, rock, jungle, eletrônica e ainda outros elementos que eu não tive competência pra perceber.

Pra não falar do fato de que os caras conseguem prender a plateia com uma ultra facilidade, misturando elementos como beat box e flauta, um vocalista que é a personificação moderna do Macunaíma (veja foto do vocalista feita pelo Pedro Nóbraga) e guitarra, baixo e batera de muito respeito!



O Asian Dub Fundation vai tocar no próximo dia 30 no Cine Joia, em São Paulo, com ingressos a partir de R$ 60,00… destaque-se que eles tocaram no Parque Ecológico de Indaiatuba de graça! Imperdível!





sábado, 17 de maio de 2014

Estou só esperando a escola terminar, para poder começar a ler de verdade!

Eu sei que a definição de uma lista de leituras obrigatórias para um vestibular do tamanho do processo seletivo da UNICAMP atende interesses que um professor de Literatura de ensino básico está longe de conhecer. Mas estou entediado com as 'grandes mudanças' anunciadas - como, por exemplo, se fez no última dia 30 de abril - que, no final, revelaram-se de pouquíssima valia para reestruturação do ensino de literatura no ensinos fundamental e médio.

Sem dúvidas, pensando nas universidades de São Paulo, a Unicamp parece mesmo sempre sair na frente no sentido da mudança. Também é inegável o fato de que não podemos atribuir somente a ela a responsabilidade pela evolução qualitativa do ensino de leitura no estado de São Paulo. No entanto, após 8 anos de lista unificada com a modorrenta USP, a manutenção de seis obras da lista anterior e, sobretudo, a adoção de apenas um livro de autor que ainda não morreu - ainda que seja o brilhante "Terra sonâmbula", do Mia Couto -, é frustrante, e de pouquíssima colaboração para criação de novas aulas, ou uma maneira diferente de se pensar a literatura nas salas de aula anteriores à universidade.

Apenas como exercício, se eu pudesse com uma 'canetada' alterar essa lista, proporia o seguinte:

- "A viagem do elefante", Saramago
- Qualquer coletânea de poemas da polonesa Wislawa Szymborska
- "1984", George Orwell
- "Wacthmen", Dave Gibbons
- Algum romance ou livro de contos dos novos e bons autores de literatura brasileira: Michael Laub, Luisa Geisler, João Gilberto Noll
- o próprio Mia Couto e suas "Terras sonâmbulas"
- "Ópera do malandro", "Gota d'água", Chico Buarque

Com essa lista, ainda que não fosse suficiente para promover grandes mudanças, tenho certeza de que teríamos mais gente lendo por gosto, e não por obrigação - inclusive professores!!! Se o problema é dinheiro, essas obras movimentariam cinemas, livrarias, sebos, feiras literárias, teatros,  venda de ebooks, blogs, youtube muitíssimo mais do que as obras que são adotadas desde que Caminha prestara vestibular!

Juntamente com as obras anteriormente sugeridas, não haveria problema algum em se mesclar com alguns clássicos, nem tão clássicos assim:

- Mantenhamos, por exemplo, a escolha de, "Negrinha", do Monteiro Lobato, que possui narrativas de tirar o fôlego
- Contos do Machado de Assis
- "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", da Clarice Lispector
- Coletânea de poemas do Fernando Pessoa ou do Drummond
- Retornemos, por exemplo com a leitura de "Angústia", do Graciliano Ramos

Se o problema, contudo, for a possibilidade do sepulcral abandono dos clássicos, como professor de literatura, posso afirmar com absoluta tranquilidade de que os textos originais estão se comunicando com um número cada vez menor de jovens… Triste? Não! Apenas geracional! Ou, na pior das hipóteses, um conjunto de erros de gestão que apontam a leitura daquilo que nossa literatura tem de melhor de forma inconsequente, sem respeitar maturidade de leitura, condições de trabalho do professor, ou mesmo discussões que coloquem o jovem no centro da recepção dessas obras, e não seus pais, ou nós, profissionais utópicos e caducos da historiografia literária tupiniquim-brasileira-lusinata-mundial-de-todos-os-tempos-fim!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Crônica: A copa dos meninos

por Alê, Isabela Salvador e Rafaella Yurie Pucca

Quer saber... não quero mais saber de futebol. Pra todo lugar que olho, o assunto é sempre o mesmo: copa do mundo. Chega! Vou diminuir radicalmente o futebol na minha vida.

Não. Vou apenas diminuir. Melhor: vou cortar apenas o noticiário televisivo. Não! Informação sempre é bem-vinda. Vou eliminar o futebol da minha prática esportiva. Vou cortar o futebolzinho dos meus intervalos de aula. Não... vou deixar apenas o “fut” dos meus intervalos na escola. Nada de “pelada” no clube, de segunda, quarta e sexta à noite. Ali só os campeonatos de sábado e domingo. Se eu pensar bem, o melhor mesmo seria manter apenas o videogame; mas, para não abusar, eu poderia eliminar as partidas online.
         
Acho que posso suspender o futebol na tv nos domingos à tarde. Afinal de contas, o campeonato brasileiro tem intermináveis 38 rodadas, antes e depois da copa.

Não seria justo, contudo, não assistir à final da Champions League, tendo em vista o fato de que eu acompanho o campeonato desde do ano passado.

Na lista final, então, ficaria assim: a final da Champions, as partidas de Libertadores e Copa do Brasil de quarta e quinta à noite, o “fut” do intervalo, o videogame sem estar conectado e as partidas de campeonato do clube.

***

A quem eu quero enganar. Se eu quiser ser, de fato, um homem sério, de convicções, sem alienações, exageros ou afetações, devo eliminar tudo isso.

E os meus amigos? O que eles vão pensar de mim? Não tem problema. Nada de sentimentalismos. Não tem problema! Ou tem? Não tem! Não. Segundo meu pai, um homem vale pelas suas convicções. Nada de futebol, até essa coisa toda de copa passar! Está dito. E está feito!


Ps: quem tiver as figurinhas 71, 287 e 442, me manda uma mensagem pelo whattsapp, por favor...!

sábado, 10 de maio de 2014

Outro de Luisa Geisler



É o meu segundo livro da gaúcha Luisa Geisler! Também é o segundo livro dela a receber o prêmio SESC de Literatura - um em 2010 pela coletânea de textos "Contos de mentira", e "Quiçá", em 2011, na categoria romance!

Minhas expectativas eram altíssimas! E foram correspondidas! "Quiçá" conta a história da convivência entre Clarissa, uma garota de 11 anos, e seu primo Arthur, mais velho, que vem viver um ano letivo com os pais da menina, após tentativa de suicídio!

Fiquei impressionadíssimo com a estrutura do romance. A história é narrada em vários planos, alternando cenas entre os dois primos, flashbacks de um almoço de natal, e fragmentos curtos de reflexões existencialistas!

"Quiçá" faz um reflexão absolutamente sensível sobre a falta de comunicação entre pais e filhos, sobretudo quando se aponta a rebeldia adolescente como causa primeira desse conflito! Clarissa mostra ao leitor a ingenuidade poética da criança ao se deparar com aquilo que se apresenta como o não permitido, enquanto Arthur afirma o adolescente não como fonte permanente de incomunicabilidade, mas, sim, como instância capaz de perceber as fissuras existentes nas relações humanas.

O livro é lindo e altamente indicável, sobretudo para quem já é pai e está disposto a se aventurar por uma narrativa um pouco mais complexa!




domingo, 4 de maio de 2014

Sobre "O dia em que o Rock morreu", do jornalista André Forastieri


Terminei há pouco a leitura das últimas linhas. E o livro acaba assim:

"Chega de nostalgia. O Nirvana não importa. Perfeita harmonia é perfeita paralisia. Que os mortos enterrem os mortos. Faça você mesmo - faça AGORA".

Na obra, Forastieri discursa com muita lucidez sobre os grandes símbolos da música - de Beatles a Crumps; de Lou Reed a Hendrix; discutindo Raul, Amy Winehouse, MTV e o fim das revistas de música! Fala também evidentemente do Nirvana - banda pra quem ele dedica seis capítulos!

Pra mim, nascido no final da década de 80, os artigos do jornalista - escritos em circunstâncias muito diferentes e também para veículos diferentes - desfilaram como um documentário hiper relevante para entender exatamente a geração de que sou produto e as estruturas da era em que vivemos!

Existe melancolia, mas, em momento algum nostalgia, nas palavras de Forastieri. E o leitor acaba a leitura convencido de que, de fato, devemos ter notícias dos grandes acontecimentos e dos grandes nomes do século XX. Mas não podemos, em hipótese alguma, festejá-lo como o último momento de inteligência da humanidade dentro da música - na verdade, dentro de qualquer área que compreenda os domínios da ação humana!

Terminei a leitura pilhado pra ouvir um monte de coisas que deixei passar, mas sobretudo, motivado para viver as esquisitices de um mundo absurdamente diferente daquele narrado por Forastieri!

Pra quem se aventurar, BOA LEITURA!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Boys

Ela desviou da sua tentativa de beijo. Pretextou ir ao banheiro. Chamou as amigas e provavelmente não voltaria mais. Neto pegou o celular. Esperava encontrar uma mensagem de justificativa. Talvez enviada dali mesmo, do banheiro da balada. De fato, ele tinha 10 novas mensagens. Todas da sua melhor amiga, Júlia, perguntando de dez formas diferentes onde ele estava.

Pagou a comanda e dez minutos depois, já estava a dez quadras dali, estacionando o carro num posto pra beber um café de máquina, numa loja de conveniência.


***

Encontraram-se novamente por muitíssima coincidência na loja de conveniência.
- Por que você não quis me beijar?
- Não sei – ela tomou a direção da geladeira de energéticos.
“Faz dois anos que tenho tentado beijar você” – ele pensou em dizer; depois disse. - Eu realmente queria ficar hoje com você.
- Temos tempo. Se não foi hoje, poderá ser amanhã... quem sabe? – ela disse displicentemente sorrindo, pegando uma long neck de absolut.
“Acho que pra mim já chega” – ele pensou novamente em dizer, olhando pra ela absolutamente estilhaçado de amor. E então disse:   - Então amanhã a gente se vê?
- Se não for amanhã, poderá ser semana que vem. – Ela disse, já saindo da loja. A voz dela estava misturada a outras vozes e às músicas que explodiam janela à fora dos carros que estavam estacionados na frente da loja.

***

Não chegou a trancar o carro. Bateu a porta do quarto. Entrou pra dormir. Mas evidentemente não dormiu. Bebeu as cervejas que estavam na geladeira. Parou na frente do cartaz do filme “Her”, bêbado, mas incomodamente consciente. Desejou ter a namorada do filme.

Antes de cair na cama, ainda pegou novamente o celular para checar as mensagens. Duas notificações. Uma da melhor amiga. “Onde você tá, seu perdido?”; e outra dela. “Se não for semana que vem, ainda poderá ser...”

Deitou. Apertou o play do pc, sorrindo, e dormiu. Na playlist, uma única música: “Boys don’t cry”.


terça-feira, 23 de julho de 2013

Juan Dias, o Dia!


Juan, o dia, era apenas um adolescente de sete horas e cinquenta e oito minutos de idade. Até então havia vivido uma infância de privações. Filho do medo da noite, até aquele momento conhecia apenas sombras e gente muito estranha.

Não foi, porém, sem dificuldade, que ele sentara ali naquela grama ainda molhada de orvalho, para pensar que seu aniversário chegaria logo – dali a dois minutos. Estava, pois, mais do que na hora para que ele decidisse o que exatamente ele iria querer ser para o resto de sua vida: mais um dia nublado, modorrento, comportando-se como alguém decidido a atrapalhar a vida dos outros; ou um dia bem sucedido, ensolarado, rebento, daqueles que chegam às sete da noite com saúde e lucidez suficientes para reviver as horas obscuras não como depressão, mas como um envelhecimento saudável e intelectualmente bem resolvido.

***

O relógio apitou às 8h. Aniversário! Hora de comemorar mais uma hora de vida na vida de Juan Dias. Ou não!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Uma ilha para passear

"Passeios na Ilha", do Drummond, foi publicado pela primeira vez em 1952. Eu li uma edição da Cosacnaify, de 2011. O livro me tomou logo na primeira página, no primeiro parágrafo:


Quando me acontecer alguma pecúnia, passante de um milhão de cruzeiros, compro uma ilha; não muito longe do litoral, que o litoral faz falta; nem tão perto, também, que de lá possa eu aspirar a fumaça e a graxa do porto. Minha ilha (e só de a imaginar já me considero seu habitante) ficará no justo ponto de latitude e longitude que, pondo-me a coberto dos ventos, sereias e pestes, nem me afaste demasiado dos homens nem me obrigue a praticá-los diuturnamente. Porque esta é a ciência e, direi, a arte do bem viver; uma fuga relativa, e uma não muito estouvada confraternização.
Ao longo das páginas da obra, o poeta vai falar das suas Minas Gerais, através de quadros impressionistas de Itabira e Ouro Preto; das injustiças que a classe média sofre nos discursos oficiais - e nos não oficiais também; e dos poetas cujas leituras são humanamente necessárias.

Para mim, contudo, esse primeiro parágrafo já guarda em si todo o conteúdo, e todos os sentimentos que Drummond sentia quando da época de sua publicação, e também o que sinto um pouco por viver nos tempos presentes. 

Não é exatamente a necessidade de fugir. Muito menos querer uma temporada de descanso, sossego. Trata-se muito mais da necessidade de me encontrar, ainda que seja numa ilha metafórica, para avaliar a existência. Também não se trata de uma avaliação sistemática, de ares depressivos. Preciso de serenidade suficiente para viver o belo da existência, no seu mais profundo sentido estético.

Nesse caso, importa-me, por exemplo, tanto o mais maravilhoso pôr do sol no parque, como o pranto de ansiedade quando se sabe o motivo para tal - ou, sobretudo -  quando não se sabe o motivo para tal. 

É, de fato, uma ilha metafórica. Para Drummond, nos seus "passeios", uma ilha de serenidade para que suportasse o pós-guerra. Para mim - nós -, uma ilha para que eu me suporte. Poder-se-ia talvez dizer uma ilha pré-guerra. Nela ainda receberia jornais, leria romances, assistiria a filmes comerciais, trabalharia, conversaria com meus amigos e os meus não-amigos. Mas teria exatamente na simultaneidade do meu viver a saúde suficiente para o próprio viver. 

"Passeios na ilha" deve ser lido. Eventualmente para que o transformemos quem sabe num livro de frases de auto-ajuda. Ou ainda para que tentemos compreender a importância do exercício de um poeta para adequadar-se ao seu próprio tempo.

Nos vemos.



terça-feira, 9 de julho de 2013

Voltei...

Voltei com mais perguntas! Segue, pois, a primeira - que, no fim de contas, não é essencialmente uma pergunta:

POR QUE NOS ENCHEMOS DE LITERATURA, SENÃO PARA NOS DEVOLVERMOS CHEIOS DE HUMANIDADE? 

Um post, a cada sete dias.

Nos vemos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

E esse é o fim das palavras e dos caramelos... Pelo menos das palavras que estão aqui e dos caramelos que por tanto tempo me conduziram neste espaço... Vou inventar outras coisas num espaço diferente - que ainda está em gestação. Por enquanto, obrigado mesmo pela leitura atenciosa, frequente, crítica, elogiosa... gentil! Todas elas me serviram sempre, e vão continuar me servindo! Um grande abraço, Nos vemos. Nos vemos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Obrigado!

Discurso de Paraninfo para os alunos do 3ªA, Colégio Fleming Campinas. 07 de Dezembro. Ano 2011.

***

Senhores pais, amigos professores, coordenação, direção, convidados,... Meninos ... boa noite!

É incrível pensar como depois de três anos - com encontros de quase duas horas semanais - eu ainda tenha coisas a serem ditas pra vocês.

Honestamente não haverá nada de novo. O curioso ou o interessante desta fala reside justamente na minha tentativa absolutamente amadora de falar coisas velhas - e descaradamente batidas - dando-lhes uma roupagem de gala.
A intenção - que fique bem claro! - é menos a pretensão, e mais a necessidade de vê-los, de novo, ... de vê-los, uma última vez, na verdade... atentos àquilo que eu julgo - arbitrariamente - importante falar sobre o mundo.

***

Certa vez - era uma sexta-feira de 2009 - a Profª. Silvana, de Gramática, afirmou o seguinte a respeito do 1ºA - hoje 3ºA: “Eles são espetaculares! É a turma em que ninguém se repete... tem de tudo ali...”.

Na época, eu tinha inúmeros problemas de disciplina na turma. Por vários motivos. Mas... sobretudo... por eu não compreender que eu não podia dar UMA aula para 25 alunos. A fala da Profª. Silvana veio epifanicamente me esclarecer que eu deveria preparar de um mesmo tema 25 aulas para 25 alunos.

Evidentemente se alguém me perguntar, eu não vou conseguir nem esboçar uma resposta de como se faz isso. Também não posso garantir que de fato naquele ano eu tenha dado no mesmo espaço-tempo 25 aulas diferentes. Às vezes eram 23, 15, 7... às vezes - e eu preciso ser muito honesto com relação a isso - não conseguia nem meia aula direito.

Às vezes, contudo, - e essas também não foram poucas ao longo destes três anos como professor de Literatura -, cada uma das aulas que eu preparava... para cada um de vocês... de repente se fundiam em uma só, e de repente eu tinha a um só tempo a generosa e respeitosa atenção de todos de uma só vez. (Pausa) Aí... (Pausa) matávamos Inês de Castro juntos, morríamos de amar com Werther, subíamos em cima de defuntos na frente dos diretores da escola, na taverna do Álvares de Azevedo.

Vocês transbordavam da sala, esparramados... Rigorosamente travessos, forçavam os caprichos do mundo que queríamos na sem-gracisse do mundo que tínhamos. E mesmo nossas falas... ali dentro, elas nunca conheceram muitos os limites do que elas podiam dizer para aquilo que gostávamos de imaginar. E de repente... (pausa) por uma espécie de milagre absolutamente premeditado... (pausa) vocês sempre me faziam acreditar - porque, de fato, é verdade - que podemos muito mais o que queremos do que o que precisamos.

Nesses momentos, ... (pausa) onde estávamos menos na sala e mais no mundo, gradualmente nos despedíamos. Porque o professor... os professores... (pausa) servem pra isso mesmo: para escrever o melhor prefácio do mundo... sobre o mundo... para que depois vocês mesmo o conheçam, e o vivam, e o chorem, e o rasguem... e o reescrevam, e o mudem... como tão gentilmente vocês tantas vezes me mudaram...!

Obrigado!
Prof. Alexandre

sábado, 3 de dezembro de 2011

Augusto Mendes Ribeiro

No dia em que Augusto Mendes Ribeiro morreu, eu fiquei verdadeiramente triste. Ele era uma ótima companhia. Sobretudo para os momentos ruins! Quando eu estava quebrando a casa porque certa mulher não mais me procurava, ele aparecia com pinga, numa garrafa pet de 600 ml e me convidava a beber até morrer. Eu - evidentemente - bebia duas ou três doses e morria. Ele, quando eu 'ressuscitava' no dia seguinte, parecia ter passado a noite assistindo a filmes cults e comendo alimentos à base de soja.

Eu acho que fazia bem às minhas mediocridades ver o quão bem Augusto Mendes Ribeiro vivia como gente simples.

Aí ele morreu. De verdade. Nem foi da bebida. Até onde sei, parece que foi um atropelamento. Ele também não foi o culpado. Parece que o motorista - esse sim embriagado - avançou no farol vermelho. Às quatro da tarde! Aí ele morreu. Meio na hora, meio no hospital.

Eu acho que pessoas como o Augusto Mendes Ribeiro nem deveriam morrer. Eu deveria! Eu complico demais as coisas; tento adivinhar o futuro; preocupo-me exageradamente com minha imagem; aprendo coisas que nem são pra mim; tenho preguiça... e por aí vai... Já o Augusto Mendes Ribeiro vivia muito bem na sua simplicidade. E se agora ele morre - meio velho, meio novo, meio bêbado, meio bom, meio pobre, meio paupérrimo -, morre como um ser humano inteiro, que a vida toda não se preocupou em forjar as suas metadinhas, senão sendo.

Eu nem sei se adianta essa coisa de dizer em voz alta com fé. Ultimamente tanto a voz alta como a fé têm me faltado. De qualquer forma, Augusto Mendes Ribeiro merece toda a minha metade não afetada por mim: descanse em paz, meu bom amigo!

Nos vemos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Na loja de eletroeletrônicos...!

Certamente ele não era um comprador. Estava ali na loja mais ou menos como estão todos: apertando aleatoriamente os botões disponíveis e ouvindo desinteressado trinta segundos de músicas dos discos das prateleiras.

O tablet da Apple parecia verdadeiramente atraente. Já se via possuidor de um daqueles. E via também a expressão de impressionado que seu cunhado faria quando ele tirasse da capinha o brinquedo recém adquirido.

Ele não parecia ter mesmo intimidade com as tais novas tecnologias. Tanto que mexia no Ipad mais ou menos da mesma forma como quando se busca uma caneca para dar de amigo nas confraternizações de firma de fim de ano.

Apertou, sem querer, o ícone da galeria de fotos. Ali achou certa graça ao ver desconhecidos fotografados em seus trajes de domingo, que sorriam para fotos as quais provavelmente nunca mais veriam. Passou umas quarenta daquelas imagens, até que se deparou com três ou quatro vídeos de 9 segundos, filmados certamente no susto de outros pares que também lidavam mal com tecnologias como aquela.

Quando estava prestes, contudo, a deixar de lado o aparelho, clicou naquele que seria o seu último vídeo:

“Olá! Meu nome é Roberto! Não acho que alguém vá assistir a esse vídeo. De qualquer forma, fica aqui registrado. Não aguento mais essa m... de vida! Espero que vocês consigam suportar suas existências de 70, 80 anos... a minha já me fica bem aqui pelos vinte e poucos... Não vou falar mais porque ninguém entenderia mesmo... Nos vemos!”

Ainda assistiu ao vídeo mais uma vez. Em seguida, voltou para casa para fazer os exercícios da apostila do curso de Espanhol...


Nos vemos.

sábado, 12 de novembro de 2011

Estilhaços

Largadamente jogado.
Não me consigo ser perfeito mesmo.

Muitos papéis espalhados.
Mas o prazer pesa a frágil cama.
Afirma a desimportância das coisas todas.
Pela janela, a brisa anuncia gostosamente a chuva.

Mesmo no blog da redação do UOL ela já havia sido anunciada.
Evidentemente há muitas coisas por fazer.
O violão, os samples, e a fúria das guitarras imobilizam as providências.
De repente, o preenchimento.

Livros largados.
O filme no pause.
Pratos arbitrariamente se acumulando...


De qualquer forma, melhor sorrir agora.

Evidentemente isso não foi um poema. Isso... só aos trinta mesmo!

Nos vemos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

[Sem título adequado]

A criança na mesa ao lado, ainda de colo, manteve-se observando a conversa o tempo todo. Nunca eu a acusaria de fofoqueira, bisbilhoteira; não mandaria que se virasse e respeitasse a nossa privacidade. Assim que ela chegou, acordamos - sem dizer palavras - que se aquela criança quisesse ouvir a nossa conversa, ela simplesmente poderia.

Acho que ela não quereria fazer nenhum tipo de comentário ao longo das nossas falas. Seria uma espécie de observadora privilegiada... Permitiríamos que ela analisasse nossas expressões, ora de desconforto, ora de espontaneidade... Ela não nos atrapalharia nem mesmo se jogasse de sua cadeirinha um de seus brinquedos de borracha no chão. Pacientemente eu me levantaria para apanhar o objeto e o entregaria com um sorriso de bom gosto nas mãos ainda trêmulas da criança.

Imaginei que talvez nesses momentos ela pudesse imperceptivelmente me chamar e me dar alguns conselhos - orientações de alguém que ainda não estivesse febrilmente viciada nas coisas da mundo -, para que errasse menos a posição das minhas mãos, o timbre da minha voz, a intensidade dos meus olhares.


Os brinquedos, contudo, não caíram. Tratava-se certamente de uma criança ainda mais educada e mais discreta do que sua aparência sugeria.

***

Seus pais resolveram ir embora. Não sabia da hora, mas achei que iam cedo. Ainda com uma última espiada, não consegui decidir se a expressão da criança era de satisfação ou tédio; se me aprovava ou reprovava. Saber seria importante pra mim. Uma espécie de alívio, ou de parâmetro para correção. Ela, contudo, mantinha as mesmas expressões da chegada: sempre sorridente, corporalmente agitada, e curiosíssima com os meus olhares. Sua pouca idade definitivamente abocanhavam a minha maturidade vacilante...

A criança se foi. A mesa provavelmente seria ocupada por algum casal de ocasião; e as atitudes e olhares dos dois, diriam muito menos do que as marotices da criança. Ainda agora sinto falta da criança.

Nos vemos.

domingo, 24 de julho de 2011

(...)

João gesticula de modo a criar nas mentes mais fracas as imagens que tão dramaticamente descreve. Mais da metade dos alunos, contudo, mantêm-se impassíveis, frente às suas palavras.

Outras folhas – essas desenhadas – embora pululem também, dos mesmos cadernos, ainda que algumas chovam de baixo para cima de cadernos até então inanimados – como deveriam ser todos os cadernos -, tomam os contornos principais da sala, instituindo uma atmosfera apocalíptica na qual, por fim, algumas verdades absolutas serão estacadas no seio da humanidade.

(...)
"Qualquer um de vocês poderia ser personagem de um romance; qualquer um de vocês poderia ser personagem neste romance".

sábado, 23 de julho de 2011

A história das coisas II

(...)


Mesmo a sua única conta de e-mail. Essa guardava atualmente a incrível quantia de 8767 mensagens recebidas. Tinha a conta há seis anos. Mas admirava-se muitíssimo de ainda hoje, depois de tantas mensagens apagadas – algumas apagadas antes mesmo de serem lidas -, ter armazenado mais de oito mil e-mails. Se quisesse, com algum esforço – não muito -, poderia contar a história da sua vida inteira por aqueles e-mails - os recebidos e os enviados. Embora eles tivessem sido inventados, enviados, lidos e apagados no curto prazo, em perspectiva, de seis anos, certamente neles era possível ler a sua vida inteira.

“Se eu escrevesse a letra a nessa mesa, pensou, nela já estaria minha vida inteira?”

(...)